Correr me faz pensar, me ensina a cada treino, e faz com que seja inevitável traçar paralelos desses aprendizados com a vida pessoal e profissional.
Quem olha de fora pode achar que se trata apenas de cruzar uma linha de chegada, mas a verdade é que, tanto na corrida quanto na sucessão, o que realmente importa é o processo.
Não se improvisa em uma maratona.
Ninguém acorda em um domingo e decide percorrer 42 quilômetros sem meses de preparação, dedicação, disciplina, consistência, apoio técnico e um plano estruturado.
Da mesma forma, a transição da liderança não acontece de um dia para o outro: exige preparo, abertura, paciência e, acima de tudo, visão de longo prazo.
Na maratona, aprendemos que ritmo é tudo: se saímos fortes demais nos primeiros quilômetros, corremos o risco de “quebrar” no meio da prova.
No processo sucessório, vejo muitas famílias empresárias cometendo esse mesmo erro: aceleram a transição sem que o sucessor esteja pronto e devidamente legitimado, ou retardam demais o processo, mantendo todos presos a uma sensação de espera interminável e, aí, o fôlego acaba.
Todo maratonista conhece o famoso “muro” (geralmente entre o Km30 e 35 da prova) – aquele ponto em que o corpo pede para parar e a mente nos desafia a cada passada. Na sucessão, esse muro pode se manifestar na espera, quando o fundador resiste em soltar o bastão, quando o sucessor duvida da própria capacidade ou quando a família teme a mudança e não apoia o processo. Como diz John Davis “a sucessão precisa acontecer quando o sucessor estiver pronto para assumir, e não quando sucedido estiver pronto para sair”.
Antecipar o muro é parte do preparo. Famílias que conversam sobre seus medos, que reconhecem a carga emocional desse momento e que apoiam o desenvolvimento do sucessor conseguem atravessar o muro com menos desgaste, evitando as tão temidas lesões.
A maratona é, essencialmente, um exercício de planejamento. Cada quilômetro faz parte de uma estratégia que começa muito antes da largada. Famílias empresárias que acreditam poder resolver a sucessão com uma decisão repentina estão, na prática, largando sem treino. E o mais alarmante é que pesquisas internacionais (PwC Family Business Survey 2023) demostram que apenas 30% das empresas familiares têm um plano de sucessão formalizado. Nesses casos, o resultado é previsível — improviso, conflitos, insegurança e, muitas vezes, a perda de valor.
Maratona e sucessão pedem constância. Não basta coragem para largar, é preciso consistência para chegar e sabedoria para aproveitar a jornada. E isso é o que fará a diferença entre quem desiste da prova e quem cruza a linha de chegada, porque, ao final de uma maratona, o que fica não é só a medalha, e sim a transformação.
Completar os 42.195Km não é o fim, mas o recomeço – uma nova geração assume, novos sonhos e desafios se desenham e a história da família se projeta para o futuro. Somente assim o legado do fundador não desaparecerá — ao contrário, ganhará fôlego e musculatura adequados para percorrer novos quilômetros.
Escrito por: Mônica Camargo Tracanella