Ser uma família empresária bem-sucedida não está ligado apenas a ter uma robusta estrutura de governança, estratégias bem definidas e negócios prósperos. É preciso lembrar que toda família é um sistema, e, por esse motivo, é profundamente influenciada por dinâmicas emocionais sutis — muitas vezes invisíveis — que atuam nos bastidores, impactando as relações, as decisões, e, consequentemente, a continuidade do negócio.
Dois conceitos poderosos nos ajudam a entender melhor essas forças: a diferenciação do self e as lealdades invisíveis.
Diferenciação do Self
A diferenciação do self é um conceito central na teoria sistêmica de Murray Bowen, um dos pioneiros da terapia familiar. Ela descreve a capacidade de um indivíduo de manter seu senso de identidade e autonomia, mesmo em meio às pressões emocionais, conseguindo discernir entre pensamento e emoção; entre o que é dele e o que é do outro.
“A diferenciação faz com que os indivíduos permaneçam presentes em momentos conflituosos, sem se tornarem reativos ou defensivos. Conseguem discordar sem se desconectar; liderar sem dominar.”
Por outro lado, a baixa diferenciação costuma acarretar reações emocionais de forma intensa, a busca constante de aprovação, a dificuldade em sustentar uma posição diferente dos demais e a possibilidades de confundir os próprios sentimentos com os dos outros, fazendo com que o indivíduo acabe se anulando.
Tais padrões comprometem o futuro da família e do negócio, pois acabam enfraquecendo a capacidade de diálogo e de tomada de decisão.
Nas famílias empresárias, a diferenciação do self é fundamental para que os indivíduos possam ocupar seus papéis com autenticidade, tomar decisões conscientes e contribuir para o futuro do negócio sem se perderem nos emaranhados do sistema familiar.
As lealdades invisíveis
Ainda olhando a família de maneira sistêmica, gostaria de acrescentar o conceito de lealdade invisível, de Ivan Boszormenyi-Nagy, que acaba dificultando ainda mais a diferenciação do self.
Essas lealdades são dívidas emocionais, muitas vezes inconscientes, que atravessam gerações e moldam as relações — identidades herdadas, promessas realizadas, expectativas não ditas, pactos silenciosos — que orientam escolhas e comportamentos sem que ninguém tenha, de fato, nomeado esses compromissos.
Ao longo desses 10 anos trabalhando com famílias empresárias, encontrei alguns exemplos dessa lealdade, seja por meio de uma nova geração que assume papéis para agradar a geração mais sênior (ou foge desses papéis por medo de não atingir as expectativas), membros familiares que dolorosamente abrem mão de seus reais desejos de carreira para dar espaço a um primo ou irmão, ou até mesmo o receio de inovar por sentirem que estariam traindo o legado dos fundadores.
Se não forem trazidas à luz, essas lealdades também podem paralisar decisões importantes, comprometer sucessões e, com o tempo, corroer os vínculos familiares.
Dado que a união familiar é um importante asset da família empresária, nosso trabalho é também ajudar a iluminar o que está oculto, restaurando o equilíbrio do presente e criando espaço para perpetuidade.
O que está sendo “obedecido” de forma silenciosa? Qual é o medo por trás do conflito evitado? Qual expectativa herdada você carrega que talvez já tenha deixado de fazer sentido? O que precisa acontecer para que cada um possa se diferenciar com liberdade?
Ao trazer consciência para essas dinâmicas silenciosas, a família poderá construir um ambiente psicologicamente seguro, onde os vínculos possam ser respeitados sem que seus membros se sintam anestesiados ou aprisionados, e onde o legado não seja um fardo, mas um solo fértil para novos ciclos de riqueza e contribuição.