Com a proximidade do Dia dos Pais, compartilho uma reflexão sobre um tema que me acompanha há muitos anos: a liderança nas famílias empresárias.
Ao longo da minha trajetória, especialmente trabalhando com famílias empresárias e na Cambridge Family Enterprise Group (CFEG), aprendi que a longevidade de uma empresa familiar depende menos de líderes extraordinários e centralizadores e mais da capacidade de formar pessoas, construir processos e preparar as próximas gerações para exercer seus diferentes papéis na família, na propriedade e na empresa.
Empresas que atravessam gerações são conduzidas por líderes que compreendem essa distinção. Investem em governança, desenvolvem sucessores e entendem que sucessão não é um evento, mas um processo.
Ao pensar nesse tipo de liderança, inevitavelmente penso no meu pai, Jorge Gerdau Johannpeter. Tive o privilégio de acompanhar de perto sua trajetória, marcada por visão de longo prazo, disciplina e capacidade de execução. Ao lado de seus irmãos, transformou uma empresa familiar em uma organização global, sustentada por uma cultura sólida e por uma relação de profunda confiança entre sócios – quatro irmãos.
Seu maior legado, porém, talvez não seja apenas o crescimento da Gerdau e sua liderança empresarial, mas a construção da continuidade de uma família empresária que hoje tem à quinta geração como acionista controladora.
A transição da geração dos quatro irmãos para uma geração de primos – um dos momentos mais delicados da história de qualquer família empresária – foi conduzida com planejamento, respeito aos papéis e forte estrutura de governança, tornando-se um case de referência em governança para empresas familiares brasileiras.
Um dos grandes desafios de um líder é reconhecer o momento de mudar de papel. Permanecer no comando por tempo excessivo pode limitar o desenvolvimento da geração seguinte. Deixar a gestão enquanto ainda se pode contribuir exige confiança nas pessoas, compromisso com a organização e verdadeira visão de longo prazo.
Exatamente esta foi a trajetória do meu pai, que com muita disciplina, deixou a presidência executiva sem perder o momentum, para que uma nova liderança assumisse plenamente o cargo de CEO. Ele e seus irmãos passaram a contribuir como conselheiros. Mais tarde, os quatro também deixaram o Conselho de Administração para exercer exclusivamente o papel de acionistas controladores, fortalecendo a governança e a perpetuidade do negócio.
É também admirável a forma como sua liderança evoluiu para além da empresa. Com o tempo, ampliou sua atuação em favor da educação, da cultura, da competitividade do Brasil e da sustentabilidade, mostrando que deixar a gestão não significa deixar de liderar. Muitos líderes encontram uma nova forma de servir como acionistas, conselheiros, mentores ou apoiando causas que ampliam seu impacto na sociedade. Em seu livro A Busca, publicado aos 88 anos, Jorge demostra isso e reúne os valores que orientaram sua vida: respeito, transparência, simplicidade, excelência, propósito, resultados, generosidade, espiritualidade e amor.
Como filha, reconheço que grandes líderes nem sempre conseguem ser os pais mais presentes. Ainda assim, aprecio a forma como o esporte foi escolhido por ele como espaço de convivência, aprendizado e conexão com seus cinco filhos.
Ao olhar para esta trajetória, extraio alguns aprendizados que considero valiosos para qualquer líder de uma família empresária:
- Liderar pelo exemplo antes da autoridade.
- Construir relações de confiança com simplicidade e respeito.
- Desenvolver sucessores continuamente.
- Saber passar o bastão no momento certo, permitindo que a nova geração lidere com autonomia.
- Respeitar os diferentes papéis de gestor, conselheiro, acionista e membro da família.
- Entender que o maior legado não é permanecer no comando, mas fortalecer a cultura, os valores e os fóruns de governança.
- Manter a coragem para inovar, a curiosidade para aprender e a disposição para servir.
Sou profundamente grata por ter aprendido esses princípios. Como filha, admiro sua disciplina, simplicidade e liderança empresarial na permanente busca de um pais melhor. Como profissional que trabalha com famílias empresárias, admiro ainda mais o exemplo de alguém que soube construir uma grande empresa, fortalecer relações de confiança e conduzir uma sucessão bem-sucedida. Isso exige compreender que o verdadeiro papel da geração sênior deixa de ser conduzir a gestão para tornar-se guardiã dos valores, da cultura e da visão de longo prazo que sustentam a continuidade da família empresária.
Portanto o verdadeiro legado de um líder de família empresária talvez seja justamente saber passar o bastão para que o legado continue vivo nas próximas gerações.
Autora: Beatriz Johannpeter